quinta-feira, 8 de junho de 2017

Amargo...



Amargo é o sabor que trago na boca, depois de ter provado a tua ausência.
Amargo é o som angustiante do grito da mãe que perdeu um filho.
Amargo é o sentimento de nada poder dizer além de que vai passar…mas nunca passa.
Amargo é isso mesmo, é o sabor daquela dor que nunca acaba de passar…
Amargo é o som arrepiante da corda que roça na madeira do caixão.
Amargo é o som seco da pancada no fundo da cova.
Amargo é o saber que és tu que ficas ali.
Amargo é o som da terra lançada sobre aquela caixa de madeira.
Amargo é saber que tudo ali se acaba e ouvir os sinos tocar como se te abrissem as portas do lugar para onde dizem que vais…
Amargo é olhar os outros nos olhos, àqueles que esperam que chore…
Amargo é o sabor do meu sorriso, que me defende.
Amargo é querer-te e não te poder ter, não poder voltar sequer a sentir o toque suave das tuas mãos.
Amargo e doce é saber que não estás, mas sentir o teu perfume onde quer que eu vá.
Amargo e doce é ouvir a tua voz como se fosse uma melodia que nunca acaba de tocar…
Amargo é observar a noite cair silenciosamente e desejar que o sono se abata sobre mim para sempre e abraçar a tua alma.  

Marina

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Fez o que tinha a fazer...todos os dias...



Fez o que tinha a fazer:



A mulher profissional chegou a casa, livrou-se dos sapatos de salto alto,…colocou o avental, o elástico nos cabelos negros e de um jeito invisível aprontou a mesa e o jantar…qual super herói, troca de capa e o avental é agora sujo de tintas…entrou no seu esconderijo secreto e…aproveitando a luz do fim do dia…fez acontecer magia na tela ao som do violino que parecia chorar num lamento que se cravava na alma….e em movimentos que mais pareciam uma dança, pintou cada detalhe daquele corpo nu e imaginário semi enrolado numa branca toalha, onde gotas escorriam e se transformavam em puro desejo… pela porta de rompante entrou a filha mais nova agarrada àquela fralda carunchosa mas que era só dela. 
Com as mãos no ar, abraçou-a e deixando cair madeixas do cabelo sobre o pequeno rosto que lhe sorria, como aquele último raio de sol que anuncia: É hora de dormir!....e era agora a contadora da mesma história, onde havia uma princesa na torre do castelo e que o príncipe vinha salvar….e depois daquela doce alma adormecer…. A princesa tornava-se a rainha do castelo, do dragão e de si mesma…sem avental nem vestido amava-o até caírem ofegantes, exaustos e suados de tanto prazer…e adormecia com o seu rosto encostado ao peito dele onde se ouvia bater um coração descompassado…até ser dia, outra vez…  

Marina